Machado de Assis e o retrato da alma brasileira

Por que um escritor do século XIX continua dizendo tanto sobre nós e sobre a natureza humana.

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Por que um escritor do século XIX continua dizendo tanto sobre nós e sobre a natureza humana.

Muita gente conheceu Machado de Assis na escola, como leitura obrigatória para a prova, e saiu de lá achando que ele era difícil ou chato. É uma pena. Machado é um dos maiores escritores que o mundo já teve, e talvez o brasileiro que melhor entendeu o coração humano. Reler Machado na vida adulta é descobrir um autor irônico, divertido, profundo e incrivelmente atual.

O menino do Morro do Livramento

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Era neto de escravizados libertos, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira portuguesa. Perdeu a mãe ainda criança. Era mestiço, gago, epiléptico e pobre, e quase não frequentou escola.

Tinha tudo para ficar à margem. Mas aprendeu sozinho, lendo tudo o que encontrava. Trabalhou como aprendiz de tipógrafo, revisor e jornalista, estudou francês e inglês por conta própria e foi subindo, com esforço e disciplina, até se tornar funcionário público respeitado e o escritor mais admirado do país. Em 1897, ajudou a fundar a Academia Brasileira de Letras e foi o seu primeiro presidente.

A vida de Machado já é, em si, uma lição. Ele não esperou que o mundo lhe desse condições. Fez da leitura, do trabalho e do caráter o caminho para ir além do que parecia possível. Teve ao seu lado, por 35 anos, a esposa Carolina, a quem dedicou um dos sonetos mais bonitos da nossa língua quando ela morreu.

Um olhar que não se deixa enganar

O que torna Machado tão especial é o olhar. Ele observa as pessoas com uma ironia fina e sem ilusões. Seus personagens raramente são heróis ou vilões. São gente comum, cheia de vaidade, interesse, ciúme, autoengano e pequenas covardias, exatamente como nós.

Em vez de pregar, Machado mostra. E, ao mostrar, nos obriga a reconhecer nos personagens algo de nós mesmos.

As obras que valem a releitura

  • Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Um defunto resolve contar a própria vida, e dedica o livro “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”. Brás Cubas é rico, ocioso e vaidoso, e passa a vida sem fazer nada de importante. O livro é uma sátira genial da elite brasileira e da futilidade de uma vida sem propósito.
  • Quincas Borba (1891). Rubião herda uma fortuna e a filosofia de um louco, o “Humanitismo”, resumida na frase “ao vencedor, as batatas”. É uma crítica afiada às teorias que justificam tudo em nome do sucesso e do mais forte.
  • Dom Casmurro (1899). Bentinho conta sua história com Capitu e tenta nos convencer de que foi traído. Mas o narrador é ele, e o leitor nunca sabe ao certo. É um livro sobre ciúme, memória e como a gente reconstrói o passado para justificar a si mesmo.
  • O Alienista (1882). O doutor Simão Bacamarte decide internar todos os “loucos” da cidade de Itaguaí, até que quase ninguém escapa. Uma novela curta e divertida sobre a arrogância de quem acha que a ciência e o poder podem organizar a vida humana por decreto.
  • Os contos. “A Cartomante”, “O Espelho”, “Missa do Galo”, “Teoria do Medalhão” e “Pai contra Mãe” são pequenas obras-primas, ótimas para quem quer começar.

O que Machado tem a ver com o conservadorismo

Machado não escreveu tratados políticos e não deve ser colocado numa caixa ideológica. Mas a visão de mundo que aparece nos seus livros conversa muito com o pensamento conservador.

Ele desconfia das utopias. Simão Bacamarte e o Humanitismo de Quincas Borba são retratos de ideias grandiosas que, aplicadas à força, acabam em loucura ou crueldade. Machado sabia que o ser humano é complicado demais para caber em teorias perfeitas.

Ele conhece a natureza humana. A grande intuição conservadora é que o homem é imperfeito, e que nenhuma reforma acaba com a vaidade, o egoísmo e a inveja. Os personagens de Machado provam isso a cada página. Isso não leva ao desespero, mas à prudência e à humildade.

Ele expõe a hipocrisia. Machado ironiza a elite ociosa, o carreirismo, as aparências e a escravidão, que ele denunciou com força em contos como “Pai contra Mãe”. A crítica dele nasce de um olhar moral, não de um projeto revolucionário.

Ele valoriza o mérito e a disciplina. A própria trajetória de Machado, construída com estudo, trabalho e constância, é um exemplo do que a responsabilidade pessoal pode fazer.

Por que ler Machado hoje

Num tempo de redes sociais, em que todo mundo exibe uma versão melhorada de si, Machado é um antídoto. Brás Cubas seria um influenciador perfeito, e o “medalhão” do conto de Machado, que ensina o filho a ter só opiniões convenientes e nenhuma ideia própria, parece descrever muita gente que conhecemos.

Ler Machado também é um exercício de atenção. Ele exige leitura lenta, releitura, desconfiança do narrador. Num mundo de textos rápidos e vídeos curtos, isso é um treino precioso.

E há o prazer da língua. Machado escreve um português elegante, preciso e cheio de humor. Ler Machado é conhecer o melhor da nossa própria língua, uma das raízes mais profundas da nossa identidade.

Como começar

Se você nunca leu Machado, ou só leu por obrigação, comece pelos contos, que são curtos e saborosos. Depois vá para O Alienista, e então para Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Todas as obras estão em domínio público e podem ser encontradas de graça. Leia devagar, com um lápis na mão, e não tenha medo de reler.

Uma raiz da cultura brasileira

Machado de Assis é prova de que o Brasil pode produzir o que há de mais alto na cultura universal. Um menino pobre do morro, sem escola, tornou-se um clássico lido no mundo inteiro. Conhecer sua obra é conhecer melhor o Brasil e, mais ainda, conhecer melhor a nós mesmos.

Preservar uma cultura é, antes de tudo, ler os seus clássicos. E poucos clássicos são tão nossos, e ao mesmo tempo tão universais, quanto Machado.


JEFD

Quem escreve

José Eduardo Figueira Dantas

Editor da Raízes. Escreve sobre política, cultura, fé, família e cotidiano a partir de uma convicção simples: o que é bom merece ser conservado, e o que precisa mudar merece ser pensado com calma.

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